Eu e voces e-book

Lígia Adma Zanela

          Tínhamos 8 ou 9 anos. Hoje tenho 37.

          Uma manhã minha mãe me leu uma carta que alguém deixou debaixo da porta de nossa casa. Era uma carta sua (não sei se escrita por você). Uma carta de amor, dizendo que seu pai resolveu se mudar com a família para Sorocaba e que por isso não iríamos mais nos ver.
          Chorei.

          Fiquei chorando ali no portão em frente da minha casa, ao lado da minha mãe.
          Lembro que eu havia ensaiado para naquele mesmo dia te convidar para ir passear de bicicleta lá no bairro do Tangará. Quando a gente chegasse lá eu ia te pedir em namoro. Nos meus sonhos você aceitaria e me daria um beijo na boca.
          Lembro também que, uns 2 dias antes, teve festa junina na escola. E o Fernando Caetano disse que estava te namorando, apesar de você só se insinuar para ele (ou para mim, sei lá). Eu fiquei com muito ciúme. Mas fingi que não era nada.
          Nunca mais nos vimos.
          Nunca mais te esqueci.
          Teu nome completo nunca me saiu da memória.
          Muito, muito tempo depois, me peguei procurando seu nome na lista telefônica de Sorocaba, do quarto de um hotel, numa viagem à trabalho. Não encontrei nenhuma Lígia Adma Zanela.
          Cheguei a pensar em colocar uma faixa na rua principal de Sorocaba com seu nome e um telefone meu para contato. Mas pensei que seria muito constrangedor caso você estivesse casada e cheia de filhos.
          Mas acho muito interessante não ter te esquecido. Afinal de contas não houve nada (talvez seja por isso). Éramos só crianças. Não sabíamos nada de nada. Ou já sabíamos tudo desde então? Tenho imensa curiosidade de saber como vai você. Que destino tão distante do meu sua vida tomou. Será que ainda se lembra de mim? Será que nos reconheceríamos se nos víssemos? Será que destinos que se encontraram por um breve intervalo de tempo fariam o capricho de se reencontrarem tantos anos depois?
          Desisti da idéia da faixa, mas este capítulo é uma tentativa de te reencontrar. Talvez alguém leia e comente com outra pessoa que talvez, por uma grande coincidência, te conheça. E talvez você se lembre. E talvez tenha alguma curiosidade como a minha. E talvez possamos nos reencontrar. E depois deixemos o destino novamente levar nossos caminhos para onde quiser.
          Eu ainda não tenho filhos, mas já estou careca e começam a aparecer pelos brancos pelo meu corpo. Inacreditavelmente, minha cabeça parece estar mais jovem a cada dia. E tem também a calma que nasceu comigo e que o tempo tem transformado em tranqüilidade. Enfim, estou muito bem, graças a Deus.
          Lígia, onde você estiver, saiba que não me esqueci de você.
          Nem o tempo, nem a distância, nem a incerteza. Nada, até hoje, me fez esquecer aquela carta de amor. Aquela criança chorando ao lado da mãe. Aquela menina de vestido branco e cabelos pretos e curtos. Aquela velha infância.
          Esquecer de você é me esquecer de mim.
          Esquecer de mim é deixar o tempo me matar.
          Seria um lindo presente se te visse novamente.
          Mas deixemos o destino cumprir seus caprichos.
          Tudo de bom a você e aos seus.
          Se não nos encontrarmos mais, quero que você saiba que foi muito bom ter te encontrado naqueles dias. E que seja eterno, mesmo que na lembrança.
          Um beijo.

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Eu e vocês disse...

Acho, sinceramente, esse capítulo muito bonito. Gostaria muito que alguém me ajudasse a encontrar a Lígia Adma Zanela.
Se alguém tiver alguma informação por favor me avise. Talvez alguém conheça alguém em Sorocaba...

Ligia Adma disse...

meu nome é ligia adma zanela e sin
ceramente não me lembro e gostaria
de saber quem é, meu i mail é
ligia.contatologia@bol.com.br

obrigado

Eu e vocês disse...

Você morou em Marília quando era pequena? Estudou no colégio "EEPG Bento de Abreu Sampaio Vidal"?
Certamente minhas lembranças são diferentes do que de fato aconteceu. É normal a gente pensar diferente sobre o passado. E mesmo que seja você mesmo é muito provável que não se lembre de mim.
No capítulo "André e Du" descreve como eu lembro daquela época. Talvez te ajude a lembrar...
De toda forma, mesmo que você não se lembre, obrigado por ter entrado em contato.
Tudo de bom,
Luís Gustavo

PS: Como você soube do livro?

Eu e vocês disse...

Lígia,
Falando do presente e não do passado.
Morei em Marília até os 19 anos. Depois fui estudar Engenharia Mecãnica em Florianópolis. Me formei e fui trabalhar em Joinville-SC, depois Curitiba-PR e agora moro em Resende-RJ e trabalho na fábrica da Peugeot fabricando motores de automóveis.
Sou casado faz uns 9 anos com a Siana, que também é engenheira e também trabalha aqui na Peugeot. Não temos filhos.

Luís Gustavo

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